quarta-feira, 19 de julho de 2017

O despertador que não toca


O despertador não toca e as consequências a partir desse momento são fantásticas. Fico logo com aquela boa disposição matinal - Vestir a correr, comer a correr, sair a correr. O trabalho espera-me e o objetivo é chegar o mais rápido possível.
Uma das grandes vantagens de não ter a carta de condução é sem duvida os transportes públicos. Para quê andar de carro quando estes meios são extremamente pontuais e cómodos? Principalmente nas horas de ponta que é quando viramos autênticas sardinhas enlatadas. E ali vamos nós numa aventura, todos bem juntinhos a confraternizar, todos amigos e bem-dispostos. O ser humano é muito engraçado quando quer.
A melhor parte de andar em transportes públicos é a intensa socialização e a pacificidade. 

Definições:
- Socialização: Ato de estar agarrado ao telemóvel, partilhando uma profunda conexão entre a alta tecnologia e os humanos com o objetivo de juntar o maior número de peças iguais possíveis com o menor número de movimentos (candy crush).

- Pacificidade: Momento de plena discussão onde a espécie Homo sapiens sapiens tenta decifrar qual o individuo que tem prioridade ao único banco disponível, recorrendo ao aumento de tom de voz e à gesticulação de braços.

Ahhh, mas que animadas são as minhas manhãs quando o despertador não toca. Vamos repetir?

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Serei uma partícula de amor a pairar pela vida


Quero ser livre. Quero escalar montanhas de mochila às costas. Quero ''gritar-me'' e ouvir o eco no cume. 
Quero ser livre. Quero ir sem motivo e voltar porque sim. Quero ''levar-me'' para longe e perguntar a ninguém onde estou.
Quero ser livre. Pés descalços no chão e uma correria na areia. Cabelo solto ao vento e levantar voo em pensamento.
Quero ser eu, na inconstância do que sou, na vibração em que me crio, no timbre em que me desenlaço.
Quero ser eu, no fragmento em que sou livre,  no mais minucioso traço, no mais viçoso abraço.
Quero ser, deitada num jardim cheio de flores, sentada nas escadas da cidade, encostada na parede do café, envolvida em amor no chalé. 
Quero ser, quando tudo sintonizar num imperfeito sentido, quando nada se alinhar numa perfeita direcção.
Talvez seja o que quero ou talvez não - mas permanecerei uma singela partícula de amor a pairar pela vida, e basta.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Vais amar-me?

 Mariana tem 25 anos, sofre de depressão e perdeu a fala. Escreve todos os dias pequenas cartas que guarda, num envelope de cartão, para que um dia o filho (que hoje tem apenas 5 anos de idade) as leia.



'' Há uma dor intolerante que me asfixia. Meu amor há um vazio obstinado em mim que não me permite sentir. Tenho os sentidos entorpecidos e quase já não os sei perceber. Em meu redor há uma nuvem negra que me escurece o coração, que me adormece a alma. Estou a perder-me e não há volta a dar. Meu amor, não sei como me salvar.''

'' Todos os dias vejo-te aí tão parado a olhar para mim, com esse teu olhar tão meigo e doce. E dizes-me ''Mamã anda bincaar''. Mas a mamã está sempre tão cansada. Então aconchegas-te em mim, dás-me beijinhos e dizes ''Vou tataar de ti''. Cai-me uma lágrima de todas as vezes que o dizes. Abraço-te. Não deveria ser eu a fazê-lo? ''

- Se há razão que me mantém de pé, é ele. Se há motivo para não desistir, é ele. Então escrevo-lhe. Escrevo-lhe pela necessidade que sinto de me justificar. Escrevo-lhe porque lhe devo em troca centenas de sorrisos e brincadeiras. Mas e quando ele abrir o envelope e pegar em cada uma das cartas? Achar-me-á um fracasso? E quando ele abrir o envelope, vai ter orgulho ou pena? Vai relembrar os mimos partilhados ou os meus longos silêncios? Vai amar-me ou odiar-me?

Ontem escrevi na capa do envelope:

''Se um dia a mamã não estiver e leres isto, não te esqueças: Foste a minha única razão de existir.''